Por: José Arthur de Oliveira Filho
Recentemente, mais exatamente em meados de outrubro deste ano, foi publicado um artigo de um escritor portugues residente em Macau, onde, ao que me parece, surge pela primeira vez a expressão "sexalescentes";A partir de então, muito se tem escrito e comentado sobre o tema, que excita as inteligências, sim, mas esconde na essência, sua causalidade.
Vejamos o texto, e depois dele, uma explicação para essa causalidade.
Se estivermos atentos, podemos notar que está a aparecer uma nova franja social: a das pessoas que andam à volta dos sessenta anos de idade, os sexalescentes.
É a geração que rejeita a palavra “sexagenário”, porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer.
Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica parecida com a que, em meados do século XX, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa de jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.
Este novo grupo humano que hoje ronda os sessenta teve uma vida razoavelmente satisfatória.
São homens e mulheres independentes que trabalham há muitos anos e que conseguiram mudar o significado tétrico que tantos autores deram durante décadas ao conceito de trabalho.
Que procuraram e encontraram há muito a actividade de que mais gostavam e que com ela ganharam a vida.
Talvez seja por isso que se sentem realizados… Alguns nem sonham em reformar-se. E os que já se reformaram gozam plenamente cada dia sem medo do ócio ou da solidão, crescem por dentro quer num, quer na outra. Desfrutam a situação, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, falhanços e sucessos, sabe bem olhar para o mar sem pensar em mais nada, ou seguir o voo de um pássaro da janela de um 5.º andar…
Neste universo de pessoas saudáveis, curiosas e activas, a mulher tem um papel destacado.
Traz décadas de experiência de fazer a sua vontade, quando as suas mães só podiam obedecer, e de ocupar lugares na sociedade que as suas mães nem tinham sonhado ocupar.
Esta mulher sexalescente sobreviveu à bebedeira de poder que lhe deu o feminismo dos anos 60. Naqueles momentos da sua juventude em que eram tantas as mudanças, parou e reflectiu sobre o que na realidade queria.
Algumas optaram por viver sozinhas, outras fizeram carreiras que sempre tinham sido exclusivamente para homens, outras escolheram ter filhos, outras não, foram jornalistas, atletas, juízas, médicas, diplomatas…
Mas, cada uma fez o que quis. Reconheçamos que não foi fácil, e no entanto continuam a fazê-lo todos os dias.
Algumas coisas podem dar-se por adquiridas. Por exemplo, não são pessoas que estejam paradas no tempo: a geração dos “sessenta”, homens e mulheres, lida com o computador como se o tivesse feito toda a vida.
Escrevem aos filhos que estão longe (e vêem-se), e até se esquecem do velho telefone para contactar os amigos – mandam e-mails com as suas notícias, ideias e vivências.
De uma maneira geral estão satisfeitos com o seu estado civil e quando não estão, não se conformam e procuram mudá-lo. Raramente se desfazem em prantos sentimentais.
Ao contrário dos jovens, os sexalescentes conhecem e pesam todos os riscos. Ninguém se põe a chorar quando perde: apenas reflecte, toma nota, e parte para outra…
Os maiores partilham a devoção pela juventude e as suas formas superlativas, quase insolentes de beleza, mas não se sentem em retirada. Competem de outra forma, cultivam o seu próprio estilo… Os homens não invejam a aparência das jovens estrelas do desporto, ou dos que ostentam um fato Armani, nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de um modelo.
Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, de uma frase inteligente ou de um sorriso iluminado pela experiência.
Hoje, as pessoas na década dos sessenta, como tem sido seu costume ao longo da sua vida, estão a estrear uma idade que não tem nome. Antes seriam velhos e agora já não o são. Hoje estão de boa saúde, física e mental, recordam a juventude mas sem nostalgias parvas, porque a juventude ela própria também está cheia de nostalgias e de problemas.
Celebram o sol em cada manhã e sorriem para si próprios… Talvez por alguma secreta… razão que só sabem e saberão os que chegam aos 60 no século XXI.
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Dizem que o homem tem direito à sua opinião ainda que discordante da unanimidade e do consenso; e eu digo que, não apenas tem este direito mas também o dever de expressá-la.
O que seria do progresso do pensamento se, por cortesia ou educação, evitássemos os desencontros de opinião, ou permanecêssemos calados porque o pensamento da maioria é unânime em torno de questão obviamente equivocada.
Vivemos sim, nós, os sexagenários, numa época diferente daquela de nossos pais.
Gozamos de mais disponibilidade de tempo, oportunidades de lazer, trabalho, ou hobby gratificante.
A expectativa de vida aumentou consideravelmente, embora sua qualidade, nem tanto.
Esta geração de que falamos vive cercada pelo progresso e pela tecnologia, mas não é feliz, e isto porque vive com medo.
Um medo que jaz no subconsciente e começa a surgir, urdindo sua teia corrosiva exatamente quando nos damos conta de que começamos a envelhecer. Este medo é uma paranóia do sentimento que somatiza toda uma gama de enfermidades, do corpo e do comportamento, dali por diante.
Mas, medo de quê?
De encarar o fato de que estamos caminhando inexoravelmente para o fim.
Muitos afirmam não terem medo da morte, e estão certos pois ali nada há a temer, mas ainda assim temem o não saberem quando virá, ou como!
Nem as Religiões e nem as Universidades preparam o homem, racionalmente, para o único fato inderrogável da sua existência que é o seu epílogo.
Assim, de um modo geral, ignoramos o mais essencial de todos os conhecimentos, e isto por andarmos obcecados pelas frivolidades e distrações que a modernidade oferece.
E aqui surgem os sexalescentes, em sua tentativa de fuga hedonista, de uma realidade que o oprime e para a qual não se preparou.
Mas convenhamos, essas frivolidades e distrações não deixam de ser um excepcional paliativo, pois evita-nos confrontar o negrume da noite sem fim; que na verdade poderia ser encarado como o nosso mais almejado prêmio.
Mas essa é uma outra questão, para uma outra hora, pois exige de nós uma maturidade capaz de desprezar as barreiras do preconceito, da superstição e das religiões.
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